quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Monstro e o... monstrinho.

    " Papai quando eu crescer quero ser igualzinho a você ! " a voz fina de uma criança emitia aquela frase com a mais pura inocência . Ela encarava o seu pai esperando algum tipo de reação que lhe servisse de resposta.
    Seu pai olhou aquela minuscula pessoa, com os olhos cheios de lágrimas. Ela não entendeu, mas o semblante do seu pai expressava agonia, e não orgulho como ela esperava. Aquele homem absurdamente alto olhou pro seu filho com tristeza.
    " .. fico feliz filho... " ele falou sem um pingo de sinceridade.
    Enxugou as lágrimas e continuou a caminhar com seu filho do lado. Os dois iam ao açougue comprar dois quilos de carne. Se tratava de um tipo diferente de família. O pai era um homem com um rosto naturalmente agressivo, de altura absurda, e com uma tonalidade de pele meio esverdeada. O garotinho,  aparentemente filho daquela criatura grotesca , possuía os mesmos traços que o pai, mas com características de uma criança ainda em desenvolvimento.
    O garoto ficou em silêncio, percebendo que seu comentário não tinha sido muito construtivo, como ele esperava. Eles dois atravessaram a rua e entraram no açougue. Via-se no rosto do menino uma devoção fervorosa, enquanto ponderava acerca da situação que tinha acabado de criar. Ele estava tentando entender o que possivelmente teria dito errado.
    " Dois quilos de coxa, por favor . " o homenzarrão pediu meio roboticamente ao açougueiro.
    O açougueiro sem parar pra observar a fisionomia desproporcional do homem, foi para o deposito de carne a procura do pedido que lhe foi feito. Aquele gigantesco homem esperou apoiando seus braços no balcão. Seu coração ainda pesava com aquele comentário tão inocente. Lágrimas rolaram mais uma vez daqueles olhos amarelados.
    Ele lembrou que a muito tempo atrás ele tinha dito a mesma coisa pro seu pai. Sempre se arrependeu daquele momento. Um sonho tão normal e inocente se tornou um sinônimo de loucura. No decorrer da sua vida ele viu coisas que, nenhum ser vivente, com a capacidade de sonhar, devia ter visto. Mas o que ele podia fazer ? Era parte da natureza do seu pai. Massacres sanguinários, mutilações e morte, era o que lhe vinha a cabeça ao lembrar da figura paterna. Nunca conseguiu entender. Seu pai, aquele homenzarrão que sempre fora seu exemplo de vida, era um monstro. Preferiria não lembrar dos momentos alegres, eles sempre traziam uma decepção por detrás deles. Era horrível. Sempre havia sonhado em ser alguém feliz, sem preocupações, com uma postura séria e responsável igual seu pai. Descobriu que era tudo ilusão.
    Aquelas memórias o vinham corroendo por dentro deixando detritos de insanidade em sua consciência. Como podia alguém nascer com a capacidade de sonhar ser algo, que sua própria natureza impedia ? Incapaz : era a resposta automática que sua mente enviava pra todas suas perguntas e vontades. Era inútil lutar contra um instinto. Ele simplesmente cansou de tentar ser algo, e se tornou nada. Movido sempre por um piloto automático que o dizia o que fazer, ele obedecia sem pestanejar. Vivia morto dentro de si mesmo. Era um monstro.
    O açougueiro, absurdamente pálido, voltou com o pedido do homem. O homenzarrão acordou de uma viajem dentro dos seus pensamentos, e olhou instintivamente pro açougueiro que pesava a carne. Após pesar, o açougueiro lhe integrou a carne já paga, e ele saiu com seu filho do açougue. O garoto perseguia uma borboleta com seus olhos, enquanto ele e seu pai iam em direção a rua. Nenhum tipo de pensamento difícil e sério voava pela mente daquela pequena criatura, ele interagia normalmente com seu coração, enquanto, seu coração interagia explosivamente com a imagem da borboleta colorida que voava.
    O homem sorriu levemente vendo seu filho viver uma paixão tão bonita. Infância, berço dos tesouros que nos enriquecem de alegria. Eles dois esperavam uma oportunidade para atravessar a rua movimentada, enquanto ele se deixou guiar pelos pensamentos mais uma vez. Na verdade ele queria que tudo acabasse, mas como ? Ele sabia que algum dia iria, e por isso se permitia viver na esperança de que algum dia tudo mudasse. Mas escondido dentro do seu coração dormia o medo, medo de ver seu filho querer ser o que ele nunca seria capaz de se tornar. Ele tinha medo de ver os olhos do seu filho se inundarem de dor. Seu maior sonho era ver que a partir dele uma linhagem de beleza marcasse a natureza absurda da sua espécie. Ele se segurava em algo tão fantasioso que, não depositava nem esperança. Mas ele tinha que esperar. Sempre que olhava os olhos pequenininhos do seu filho abrirem de manhã, ele acreditava. Nada era mais bonito do que ver a vida correr livre dentro dele. Não tinha nenhuma sensação igual a de segurar ele nos braços e ver que, dentro daqueles minúsculos olhos brilhava a crença de que a vida é feliz.
    O sinal fechou e os dois atravessaram a rua. Iam pai e filho um do lado do outro, atravessando a rua e sorrindo. Sorriam porque a natureza não tinha força para impedir a beleza que morava neles. Sorriam por que embora sem esperança tinha um ao outro, e juntos sustentavam suas certezas e seus sonhos.

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